Denise Campos de Toledo: A época do rentismo ficou no passado

O Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, tomou a decisão mais que antecipada: reduziu a taxa básica de juros, a Selic, em 0,75 ponto percentual para 2,25% ao ano. As consequências em termos de estímulo ao crescimento são questionáveis, dadas as dificuldades de transmissão para o custo do crédito – sendo que este vem mostrando gargalos até em linhas específicas criadas pelo governo, para fazer frente aos efeitos da pandemia. Os bancos continuam muito cautelosos pelo risco de inadimplência, que sempre aumenta em momentos de dificuldade para a economia. Mas, mais à frente, os impactos podem se tornar mais perceptíveis e, pelas projeções quanto ao andamento da economia brasileira, daqui para 2021, qualquer reforço será bem-vindo.

Embora do lado do crédito não se possa esperar muito, por outro lado, juros menores reduzem a rentabilidade das aplicações de renda fixa, o que pode levar os investidores a buscarem investimentos produtivos, inclusive ações, que são um caminho para as empresas captarem recursos mais baratos. A época do rentismo passou. Esse é um dos motivos de as bolsas de valores estarem tendo uma forte recuperação. O ambiente externo é de muita liquidez, com vários países e organismos internacionais lançando programas de estímulo, paralelamente à manutenção de juros baixos. Tem muito dinheiro em circulação em busca de boas oportunidades. E até as bolsas de países emergentes, como o Brasil, acabam atraindo capital.

Importante notar que era um dinheiro que antes vinha muito para a renda fixa, o que foi diminuindo na medida em que a Selic foi testando patamares inéditos de baixa. Além da bolsa, imóveis e atividades empresariais se tornam mais atraentes. Para quem prefere a renda fixa, os cuidados devem ser muito maiores já que o diferencial em relação à inflação é cada vez mais estreito, podendo até ficar negativo com taxas e tributos cobrados em várias aplicações.

Outro efeito dos juros mais baixos é a menor atratividade para o capital externo, o que diminui o fluxo de recursos para o país, reforçando pressões de alta sobre o dólar. Esse foi um dos motivos da mudança de patamar da moeda desde o ano passado, além de acompanhar o movimento das moedas no exterior. Dólar que, em algum momento, pode pesar na inflação. Por enquanto não há qualquer ameaça à meta inflacionária, mas, com a economia reagindo e o dólar mais alto, podemos chegar a um momento em que a Selic tenha que voltar a subir, para conter as pressões. Mas isso mais à frente. Por enquanto, o comportamento da inflação permite até que se pense em corte adicional dos juros básicos, como indicou o próprio Banco Central. Talvez, de apenas 0,25 ponto percentual. É o Brasil no padrão de juros das economias desenvolvidas.

*Denise Campos de Toledo é comentarista de economia da Jovem Pan.