Investidores estrangeiros não conhecem ações do Brasil na área climática, lamenta Campos Neto

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse nesta terça-feira (23) que os investidores internacionais não estão devidamente informados sobre as ações do Brasil para o desenvolvimento de atividades ambientalmente sustentáveis.

“O Brasil tem um grande potencial em negócios sustentáveis. Existe grande falta de informação sobre o que Brasil faz na área climática”, disse, em teleconferência organizada pelo Climate Bonds Initiative (CBI), com o tema: “Destravando o potencial de investimentos verdes para agricultura no Brasil”.

A fala de Campos Neto ecoa as declarações dadas ontem pelo presidente Jair Bolsonaro, que disse “saber” que a imagem do País não está “muito boa” aos olhos externos na questão ambiental. O presidente também creditou essa situação ao que chamou de “desinformação”.

No começo de junho, Bolsonaro assinou decreto criando as debêntures verdes incentivadas. Campos Neto prometeu hoje que o governo tomará mais medidas em breve para o financiamento de atividades sustentáveis.

O presidente do BC citou ainda que o mercado de títulos verdes no Brasil soma apenas US$ 1,5 bilhão, o que, segundo ele, é muito pouco diante de um mercado global de mais de US$ 400 bilhões. “As escolhas de nossos filhos vão fazer com que clima será mais preponderante que nossas decisões”, projetou.

Além disso, Campos Neto avaliou que o Brasil pode ser um grande centro de negociação de créditos de carbono. Segundo ele, o mercado global de créditos de carbono está se recuperando.

“Esse mercado vinha em um movimento crescente, na crise de 2008 os preços desses créditos caíram bastante. É um mercado muito cíclico. Mais recentemente, esse mercado voltou a se recuperar. É um mercado importante que tem um papel fundamental”, avaliou. “Uma forma de ajudar na governança climática é assegurar que as emissões de carbono estejam sujeitas a precificação”, afirmou.

Mudança climática

Roberto Campos Neto destacou a importância da análise sobre mudanças climáticas para a atuação da instituição, tanto na política monetária como na estabilidade do Sistema Financeiro Nacional (SFN).

“O tema da mudança climática está na agenda de todos os bancos centrais. Os banqueiros centrais da Europa dedicam muito tempo à discussão ambiental”, afirmou. Os choques ambientais afetam a oferta na economia, com impactos nos preços relativos e nos preços de energia, continuou. Ele destacou ainda as incertezas sobre a duração e a abrangência desses choques.

“Choques ambientais podem ser duradouros e podem mudar a estrutura de produção de um País, em efeitos na produtividade. Choques ambientais também influenciam taxa de juros neutra”, detalhou. “Da mesma forma, a saúde financeira do setor financeiro é influenciada por choques climáticos, que podem afetar o setor imobiliário ou ainda elevar a inadimplência”, completou.

O presidente do BC citou as iniciativas da autoridade monetária em estimular práticas sustentáveis no setor financeiro, bem como o financiamento das boas práticas ambientais.

“O Brasil tem um histórico muito grande na economia sustentável. Queremos criar marco regulatório mais robusto na questão ambiental”, acrescentou. “Quem não estiver adequado a essas práticas não vai receber investimentos estrangeiros”, avaliou.

*Com Estadão Conteúdo