Canabidiol pode ajudar pessoas a abandonarem o consumo de maconha, diz pesquisa inglesa


Parte não intoxicante da planta de cannabis, o canabidiol tem sido usado pela indústria farmacêutica como substância medicinal. Este é o primeiro estudo a testar o canabidiol no tratamento para reduzir o consumo de cannabis. Canabidiol é uma substância presente na maconha e é liberado para uso em medicamentos
Marcelo Brandt/G1
Um estudo das universidades inglesas Kings College London e Universidade de Bath afirma que doses prescritas de canabidiol (CBD) podem ajudar pessoas a abandonar o hábito de consumir maconha.
Publicado nesta terça-feira (28) na revista científica “Lancet Psychiatry”, o estudo é apontado como o primeiro ensaio clínico randomizado de canabidiol administrado em pessoas com transtorno do uso de Cannabis sativa.
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Nos estudos randomizados, os pacientes são distribuídos aleatoriamente em dois ou mais grupos, e cada um é submetido a um tratamento diferente.
Participaram do estudo 82 usuários que já haviam tentado outras vezes abandonar o consumo da maconha, mas não conseguiram. Eles foram divididos em dois grupos: enquanto um recebeu doses prescritas de canabidiol, o outro recebeu placebo. O período de tratamento variou em cada voluntário, tendo ocorrido entre quatro semanas a seis meses.
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Para acertar a dose correta a ser administrada no tratamento, os pesquisadores testaram 3 quantidades:
Em uma primeira etapa do estudo, 48 voluntários receberam placebo ou canabidiol nas doses de 200 mg, 400 mg ou 800 mg. Percebeu-se que a dose mais baixa era ineficaz e, portanto, foi retirada do estudo.
Na segunda etapa do estudo, 34 voluntários receberam placebo ou canabidiol nas doses de 400 mg ou 800 mg.
No final do estudo, os pesquisadores encontraram evidências consistentes de que doses de 400 mg ou 800 mg de canabidiol, a depender da pessoa, eram eficazes na redução do uso de cannabis.
Todas as doses foram bem toleradas e não houve aumento dos efeitos colaterais em comparação aos voluntários que utilizaram placebo
Os resultados mostraram que os participantes tratados com canabidiol apresentaram níveis mais baixos de cannabis na urina e um número maior de dias abstinentes em comparação aos tratados com placebo.
O canabidiol, parte constituinte não intoxicante da planta de cannabis, é uma substância já conhecida da indústria farmacêutica e comercializado em alguns países, como nos Estados Unidos, como substância medicinal.
Os pesquisadores reforçaram no trabalho que todos os participantes receberam um diagnóstico clínico de transtorno por uso de cannabis, indicando que o consumo problemático da substância havia criado sofrimento significativo para o indivíduo.
Sem THC
O tratamento com canabidiol proposto pelo estudo não inclui tetra-hidrocanabidiol (THC), principal elemento tóxico e psicotrópico da planta, que possa representar um risco de efeitos adversos.
Segundo os cientistas ingleses, no momento, não existem farmacoterapias recomendadas para ajudar as pessoas diagnosticadas com transtorno do uso da cannabis a parar de fumar. Além disso, o estudo foi motivado pelo fato da Europa estar enfrentando um considerável aumento de pessoas com o transtorno de consumo da planta.
O uso diário de cannabis com altas concentrações de THC, alertou o estudo, está associado a um risco cinco vezes maior de psicose.
Canabidiol no Brasil
Desde 10 de março deste ano, está em vigor no país uma resolução que cria uma nova categoria de produtos derivados de Cannabis.
Em maio, após 35 anos de pesquisas e testes, o primeiro medicamento brasileiro feito à base de canabidiol começou a ser vendido nas farmácias no Brasil. O remédio foi desenvolvido por cientistas da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (SP) em parceira com uma indústria farmacêutica do Paraná.
O fármaco a base de canabidiol comercializado no país pode ser usado somente com prescrição médica e é indicado para quadros graves e resistentes de epilepsia, em que outros medicamentos não surtiram efeito.
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