Como proteger os idosos na próxima pandemia?


Seminários discutem a vulnerabilidade dos mais velhos e a necessidade de mudanças em instituições de longa permanência Na semana passada, assisti a dois seminários cujo foco era a vulnerabilidade dos idosos frente a Covid-19 e que aprendizado poderia ser de utilidade numa próxima pandemia. Num debate entre profissionais da Universidade de Cornell, em Nova York, o geriatra Mark Lachs definiu como “surreal” o que presenciou no pico da pandemia: “eram mais de 200 pacientes entubados no auge da crise. Felizmente tínhamos infraestrutura, mas essa não era a situação em muitos outros pontos da cidade”. Afirmou que o mais doloroso foi o altíssimo número de mortes de idosos nas instituições de longa permanência, as ILPIs: “agora sabemos que é fundamental que esses lugares disponham de um volume muito maior de testes e de equipamentos de proteção. Seus funcionários precisam de cuidado especial, como tirar licença pelo tempo necessário quando adoecerem. Também deveriam ser pagos para não ir para casa e assim minimizar o rodízio de mão-de-obra nesses locais. Não há tecnologia que substitua os cuidadores, seu trabalho tem que ser valorizado”.
Nathaniel Hupert, professor de políticas de saúde na mesma instituição e especialista em emergências sanitárias, disse que o percentual de mortes nas ILPIs foi menor em países que investiram em compra de equipamento, treinamento, testagem ampliada e isolamento, como Áustria, Holanda, Portugal, Irlanda e Austrália. Ele fez uma comparação com o orçamento destinado a prever furacões, que existe há 50 anos, e enfatiza que a saúde precisa de algo equivalente: “temos que investir em modelos de prevenção, que devem ser criados por equipes multidisciplinares. No caso da Covid-19, os gráficos mostravam que, depois de alcançar um pico, a epidemia perdia intensidade com o isolamento, mas não indicavam que, no caso das instituições de longa permanência, isso não ocorria”.
Pilar Rodríguez: direitos e desejos dos idosos têm que ser respeitados
Divulgação
O risco de uma outra catástrofe dessa magnitude vem ganhando contornos de certeza: “essa é a primeira de outras que virão”, sentenciou o médico Alexandre Kalache, diretor do ILC no Brasil (Centro Internacional de Longevidade), parceiro da OEI (Organização dos Estados Iberoamericanos) em outro evento que reuniu especialistas brasileiros e estrangeiros. Para Paulo Marchiori Buss, professor emérito da Fundação Oswaldo Cruz e um dos participantes, trata-se de “um aprendizado no meio do caminho. Faz seis meses desde que a OMS recebeu a primeira comunicação de um caso do novo coronavírus. Agora são 16 milhões, número que certamente podemos multiplicar por dez”. Na sua opinião, é a maior crise de saúde em cem anos, porque, além do aspecto sanitário, há o impacto social, econômico, cultural. “A pandemia não é democrática. Mostrou de forma cruel a desigualdade, porque afeta desproporcionalmente as pessoas de baixa renda, os afrodescendentes, indígenas e migrantes”, analisou, apontando que a centralização do sistema de saúde piorou as coisas: “no interior faltam recursos, equipamentos, treinamento de ponta. Some-se a isso a falta de coordenação entre os níveis federal, estadual e municipal, uma desconexão que cria piores condições para o enfrentamento do vírus”.
Buss faz parte da liderança do movimento Sustainable Health Equity Movement, que reúne pessoas de todas as partes do planeta em torno do princípio ético do direito universal à saúde. Denuncia o modelo de desenvolvimento predatório dos recursos ambientais, que derruba florestas, destrói a biodiversidade e acaba disseminando vírus que antes estavam contidos num determinado ecossistema. “Na Fiocruz, temos catalogados mais de 250 arbovírus que vivem na Floresta Amazônica. Se esse equilíbrio se romper, podem se tornar uma ameaça”, explicou.
A gerontóloga espanhola Pilar Rodríguez, presidente da Fundação Pilares da Espanha, lembrou que o preconceito contra os idosos se revelou em todos os lugares durante a pandemia. “Foram impostos cuidados que infringiam seus direitos, como impedir que circulassem. É fundamental que respeitem seus direitos e desejos”, afirmou, ressaltando que as ILPIs necessitam de um redesenho: “que sejam como casas, e não como hospitais. O ideal é que os idosos possam ficar em suas residências, mas, para isso, as políticas públicas devem dar foco ao atendimento domiciliar e apoio às famílias que, muitas vezes, não têm como cuidar deles”.
A Universidade de Princeton fez o cálculo: a pandemia já custou pelo menos 2.6 trilhões de dólares (o equivalente a quase 14 trilhões de reais) e esse valor ainda poderá vir a ser multiplicado por dez. Andrew Dobson, professor de biologia evolucionária na instituição, e Stuart Pimm, da Duke University, criaram um grupo de cientistas para responder à pergunta: quanto vai custar para evitar que essa catástrofe se repita? A resposta é um investimento anual de 30 bilhões, valor que, se comparado com a destruição de riqueza causada pela Covid-19, não é exorbitante. “É o equivalente a de 1% a 2% dos gastos militares anuais dos dez países mais ricos do planeta”, compara Dobson. A dupla alega que a destruição de florestas tropicais e o comércio de animais desempenham papel relevante para a disseminação de patógenos, ou seja, organismos que podem causar doenças num hospedeiro. “Investir na prevenção vai ser a melhor política de segurança para a saúde da humanidade e a economia global no futuro”, resumiu Pimm, explicando que monitorar e restringir essas atividades possibilitará que novos vírus sejam detectados e estudados precocemente.