Fernanda Consorte: A melhora na percepção econômica é mesmo confiável?

Eu sempre considerei que das grandes vantagens de um ser racional, é poder mudar de ideia sempre que necessário. Isso deve servir em especial para emissores de opiniões, como eu. As expectativas de mercado, calculadas pela Pesquisa Focus do Banco Central do Brasil, sugerem a cada semana uma melhora na percepção econômica dos agentes. Na segunda-feira mesmo a pesquisa mostrou que a mediana do mercado espera uma recessão em 2020 de 5,77%, sendo que há 4 semanas, esperava-se -6,54%. Estimativa também bem acima da projeção do FMI, de -9%.

Acredito que essa melhora de percepção se ancora em alguns pontos: 1- uma melhora aparente nos indicadores de confiança, que embora ainda estejam abaixo do nível antes da Covid-19, mostram uma surpreendente recuperação em forma de “v”; 2- a retomada do foco do Congresso sobre a agenda de reformas, agora que o mandato do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), se aproxima do fim; 3- no mesmo sentido, a aliança de Bolsonaro com o Centrão como um possível acelerador no andamento das reformas; 4- baixo patamar das taxas de juros, que deve alcançar 2%a.a. na próxima reunião agendada para semana que vem e 5- não menos importante, a evolução constante das vacinas contra a Covid-19.

O resultado seria chancelado no desempenho do Ibovespa, resistindo sem grandes esforços no patamar acima de 100 mil pontos. Acontece que algo em mim não me deixa mudar de ideia em relação à recuperação econômica (ou falta dela). Eu ainda estou na turma do -9% de PIB neste ano. Explico: Primeiro porque a reabertura econômica que está ocorrendo de forma heterogênea no Brasil, concentrada em SP e RJ (Estados mais representativos), ocorre de forma muito gradual. E, mesmo quando ocorrem liberações, me parece que a população ainda está com muito medo (tanto de perder emprego e consumir, quanto de sair e se contaminar). Assim, como os dados de confiança subiram tão rápido?

Segundo, que o cenário político não desanuviou completamente, há pontos a serem esclarecidos, como o tema Fabricio Queiroz, por exemplo. O terceiro ponto diz respeito à fragilidade fiscal do Brasil:  a agenda de reformas está bastante atrasada e houve um aumento de gastos públicos abissal (e necessário) para conter impactos da crise  do coronavírus, trazendo possivelmente a dívida/PIB para um patamar de 100% – o que é grave. Por fim, o segundo semestre desse ano deve dar de cara com falências de pequenas e médias empresas que tiveram dificuldade de acesso ao crédito, e, considerando que pequena e média empresas respondem por mais de 50% da população ocupada, a taxa de desemprego ainda tem espaço para piorar muito.  Eu realmente quero me apegar nos sinais e dados que sugerem um cenário menos enfraquecido, mas a intuição me diz outra coisa…

*Fernanda Consorte é economista-chefe do Banco Ourinvest e colunista na Jovem Pan.