FIDCs: a chave para desbloquear novas oportunidades no crédito estruturado  

Diego Velázquez Por Diego Velázquez
5 Min de leitura
Pedro Daniel Magalhães

Poucos instrumentos do mercado financeiro cresceram tão rápido quanto os FIDCs, e Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação no mercado financeiro, crédito estruturado e gestão corporativa, tem acompanhado de perto esse movimento. Em pouco mais de um ano, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios saíram de um nicho técnico para um dos instrumentos que mais avançam entre as emissões de capital no Brasil, com crescimento superior a 47% na comparação anual. Para empresas que dependem de capital de giro, entender como esse mecanismo funciona deixou de ser assunto só de especialista.

Um FIDC nada mais é do que um veículo que compra créditos a receber de empresas, como duplicatas, contratos de venda a prazo ou recebíveis de cartão, antecipando esse dinheiro com desconto. A empresa que vende ganha caixa antes do vencimento; o fundo passa a ter o direito de cobrar dos devedores originais nas datas combinadas. Esse desenho resolve um problema recorrente do caixa corporativo brasileiro: o descompasso entre o prazo de recebimento e o prazo de pagamento das obrigações.

Uma porta de entrada para empresas de menor porte

O que diferencia os FIDCs de outros instrumentos de captação é justamente o tamanho médio das operações. Levantamentos recentes da Anbima mostram que o valor médio por operação de FIDC é o mais baixo entre os instrumentos estruturados, bem distante dos volumes praticados em emissões de debêntures ou notas comerciais de grande porte.

Essa característica muda o público que consegue acessar o produto, informa Pedro Daniel Magalhães. Empresas de médio porte, que dificilmente conseguiriam estruturar uma emissão de dívida corporativa tradicional, encontram no FIDC um caminho mais compatível com seu fluxo de recebíveis. Não é um instrumento pensado só para grandes companhias com departamento financeiro robusto; é um mecanismo que se adapta à realidade de quem fatura por parcelamento ou contrato recorrente.

Resiliência mesmo com juros elevados

Um dos questionamentos mais comuns entre gestores financeiros é se a alta da Selic reduziria o apetite por esse tipo de fundo. Na prática, o efeito observado foi quase o oposto. Investidores em busca de rendimento pouco sensível à variação da taxa básica encontraram nos FIDCs uma alternativa de diversificação, já que o retorno está atrelado ao desempenho da carteira de recebíveis, não diretamente ao custo do dinheiro no mercado.

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

Como executivo e advisory da área de finanças, Pedro Magalhães costuma destacar, em análises sobre o setor, que essa característica também explica por que a captação se manteve firme mesmo em meses de maior volatilidade em outras classes de ativos estruturados. O fundo diluiu o risco entre muitos devedores, e um problema pontual em um deles representa fração pequena do total.

Governança mais rígida sustenta o crescimento

A expansão recente não aconteceu no vácuo regulatório. A Comissão de Valores Mobiliários ampliou as regras sobre como os fundos podem se estruturar, incluindo a possibilidade de outros veículos, como fundos imobiliários, investirem em direitos creditórios sob determinadas condições. A separação entre cotas sênior e subordinada, que distribui o risco entre diferentes classes de investidores, também se consolidou como padrão de mercado.

Segundo Pedro Daniel Magalhães, esse amadurecimento institucional é o que diferencia o ciclo atual de expansões anteriores do setor, quando a falta de padronização gerava desconfiança entre investidores institucionais. A regulação mais clara reduziu essa barreira de entrada, tanto para quem capta quanto para quem investe.

O outro lado da expansão acelerada

Crescimento rápido, no entanto, costuma trazer atenção redobrada. Parte do mercado já sinaliza preocupação com fraudes em recebíveis e com o risco de inadimplência em carteiras estruturadas às pressas para aproveitar a demanda aquecida. A due diligence sobre a origem dos créditos que compõem cada fundo se tornou, por isso, ponto central de avaliação para gestoras e auditores.

Para quem avalia captar recursos por meio de um FIDC, a lição prática é que o instrumento resolve um problema real de caixa, mas exige organização documental e transparência sobre a carteira de recebíveis oferecida em garantia. É essa transparência, mais do que o volume captado, que deve definir se o setor mantém a trajetória de crescimento nos próximos ciclos.

 

Compartilhe esse artigo