Plataforma passou a impedir que publicações de perfis oficiais de candidatos sejam recomendadas automaticamente a usuários que não seguem essas contas; medida atende às normas eleitorais brasileiras e afeta diretamente as estratégias de alcance orgânico das campanhas.
A plataforma X modificou seu sistema de recomendação para as Eleições 2026 no Brasil, estabelecendo uma limitação importante para o marketing político digital: publicações feitas pelos perfis oficiais de candidatos não devem ser recomendadas automaticamente a usuários que não seguem essas contas.
A mudança ganhou repercussão nesta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, justamente no início da campanha eleitoral oficial, período em que partidos e candidatos intensificam investimentos em redes sociais e estratégias para ampliar o alcance de suas mensagens.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o X implementou um filtro identificado internamente como “Brazil2026ElectionFilter”. A ferramenta impede que posts de candidatos sejam distribuídos pelo mecanismo de recomendação para pessoas que não seguem seus perfis. As publicações, porém, continuam disponíveis na plataforma e podem ser acessadas normalmente diretamente nas contas dos candidatos. (Folha de S.Paulo)
O que muda no X?
A principal mudança envolve a chamada recomendação algorítmica.
Em redes sociais modernas, um usuário não visualiza apenas conteúdos publicados pelas contas que decidiu seguir. Os algoritmos também selecionam publicações de outros perfis com base em fatores como interesses, engajamento e comportamento dentro da plataforma.
Para candidatos registrados nas eleições brasileiras, essa distribuição automática passa a enfrentar uma restrição.
Na prática, uma publicação feita pelo perfil oficial de determinado candidato pode continuar chegando aos seguidores daquela conta, mas não deve ganhar alcance adicional entre usuários que não seguem o candidato simplesmente porque o algoritmo decidiu recomendá-la.
A alteração não significa que as contas ou publicações dos candidatos tenham sido removidas da plataforma. (Folha de S.Paulo)
Regra tem origem na legislação eleitoral
A decisão está relacionada às normas estabelecidas pela Justiça Eleitoral brasileira.
A Resolução TSE nº 23.610/2019, posteriormente atualizada para as eleições seguintes, estabelece regras para propaganda eleitoral também no ambiente digital. Para 2026, a regulamentação recebeu novas atualizações, enquanto a propaganda eleitoral geral passou a ser permitida a partir de 16 de agosto. (Justiça Eleitoral)
Entre as regras aplicáveis às plataformas estão restrições envolvendo sistemas automatizados de recomendação de conteúdo eleitoral.
A medida busca evitar que mecanismos algorítmicos das próprias plataformas ampliem automaticamente a exposição de determinadas candidaturas.
Impacto direto no marketing político
Para as equipes de campanha, a mudança pode ter consequências importantes.
O alcance orgânico é uma das principais ferramentas utilizadas no marketing eleitoral digital. Uma publicação que gera grande quantidade de comentários, compartilhamentos e interações pode normalmente ser recomendada para pessoas que ainda não acompanham determinado perfil.
Esse mecanismo permite que um candidato alcance novos públicos sem necessariamente depender de publicidade paga.
Com a restrição aplicada aos perfis oficiais, as campanhas precisam trabalhar com maior atenção outras formas permitidas de distribuição.
Isso pode aumentar a importância de seguidores já conquistados, compartilhamentos realizados por usuários, produção de conteúdos com capacidade de circulação espontânea e estratégias autorizadas de impulsionamento eleitoral.
Impulsionamento continua tendo regras próprias
A legislação brasileira permite determinadas modalidades de impulsionamento pago de propaganda eleitoral na internet, desde que respeitadas as condições estabelecidas pela Justiça Eleitoral.
As regras exigem identificação adequada e estabelecem quem pode contratar esse tipo de publicidade.
A propaganda eleitoral na internet está autorizada desde 16 de agosto, enquanto continuam existindo restrições específicas para diferentes formas de publicidade política digital. (Justiça Eleitoral)
Isso cria uma diferença importante entre recomendação algorítmica orgânica e impulsionamento eleitoral contratado dentro das regras.
O primeiro ocorre quando a própria plataforma decide recomendar uma publicação. O segundo envolve uma contratação publicitária autorizada e identificada como tal.
Campanhas terão de disputar seguidores
A alteração pode aumentar o valor estratégico da construção antecipada de comunidades digitais.
Um candidato com grande número de seguidores começa a campanha com uma vantagem potencial: possui uma audiência própria para receber diretamente suas publicações.
Já candidatos menos conhecidos podem enfrentar dificuldades maiores para romper suas respectivas bolhas digitais se dependerem apenas do perfil oficial.
Nesse cenário, conquistar seguidores deixa de representar apenas uma métrica de popularidade e passa a ter importância direta na distribuição de mensagens durante a campanha.
Criadores e apoiadores podem ganhar importância
Outra possível consequência é o aumento da relevância de apoiadores, influenciadores e criadores de conteúdo.
Embora o perfil oficial do candidato esteja submetido às regras específicas de recomendação, discussões políticas continuam acontecendo por meio de milhões de usuários comuns.
Uma declaração, vídeo ou proposta pode ser comentada, reinterpretada e compartilhada por outras pessoas, ampliando sua circulação.
Isso significa que as campanhas podem procurar produzir conteúdos capazes de gerar participação espontânea dos apoiadores, embora qualquer estratégia organizada de propaganda continue sujeita às normas eleitorais aplicáveis.
Mudança provoca reação política nos Estados Unidos
A decisão do X também provocou repercussão internacional.
Sarah B. Rogers, subsecretária de Estado para Diplomacia Pública dos Estados Unidos, criticou a medida e classificou a aplicação das regras brasileiras como censura.
Segundo a Folha, a manifestação ocorreu após a divulgação da existência do filtro utilizado pelo X para atender às exigências eleitorais brasileiras. (Folha de S.Paulo)
A interpretação é contestada pelo contexto jurídico da medida: as publicações dos candidatos não foram eliminadas da plataforma e continuam acessíveis. A alteração está relacionada especificamente à forma como o algoritmo recomenda esses conteúdos para usuários que não acompanham as contas. (Folha de S.Paulo)
Campanha eleitoral começou em 16 de agosto
A implementação ganha ainda mais importância por ocorrer justamente na largada da propaganda eleitoral.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, a propaganda nas ruas e na internet passou a ser permitida em 16 de agosto de 2026. A partir desse momento, candidaturas podem apresentar propostas, divulgar mensagens eleitorais e utilizar diferentes instrumentos de comunicação previstos na legislação. (Justiça Eleitoral)
Com isso, redes sociais passam a ocupar posição central nas estratégias das campanhas presidenciais, estaduais e legislativas.
Algoritmos entram definitivamente na eleição
A discussão também evidencia uma mudança maior no marketing político.
Durante eleições anteriores, boa parte do debate sobre redes sociais estava concentrada em anúncios, fake news, disparos de mensagens e impulsionamento.
Em 2026, o funcionamento dos próprios algoritmos de recomendação tornou-se parte central da regulamentação eleitoral.
Esses sistemas possuem enorme capacidade de determinar quais publicações recebem visibilidade e quais permanecem restritas a comunidades menores.
Por esse motivo, uma decisão aparentemente técnica sobre o funcionamento de um feed pode produzir efeitos significativos sobre as estratégias de comunicação das campanhas.
IA e desinformação também estão sob fiscalização
As regras digitais das eleições de 2026 vão além dos sistemas de recomendação.
A Justiça Eleitoral também estabeleceu normas relacionadas ao uso de inteligência artificial, conteúdo sintético e deepfakes.
O Ministério Público Eleitoral recomendou às plataformas medidas para combater desinformação e violência política e destacou a necessidade de identificação clara de determinados materiais produzidos por inteligência artificial. (Ministério Público Federal)
Assim, as equipes de marketing precisam trabalhar em um ambiente digital mais regulado, no qual decisões sobre edição de vídeos, impulsionamento, IA e distribuição algorítmica precisam considerar as normas eleitorais.
Marketing político precisa se adaptar
Para candidatos e estrategistas, a mudança no X reforça uma tendência que deve marcar as eleições brasileiras de 2026: não basta produzir conteúdo; é necessário compreender como esse conteúdo pode legalmente chegar ao eleitor.
Campanhas com comunidades digitais consolidadas podem tentar mobilizar seguidores para ampliar espontaneamente a circulação das mensagens. Outras podem aumentar a atenção dedicada aos formatos permitidos de publicidade eleitoral.
Ao mesmo tempo, Instagram, TikTok, YouTube, aplicativos de mensagens e outras plataformas continuarão disputando espaço dentro das estratégias eleitorais.
A alteração realizada pelo X mostra, portanto, como regulação eleitoral, algoritmos e marketing político estão cada vez mais interligados.
Nas eleições de 2026, a disputa pela atenção do eleitor não acontece apenas entre candidatos. Ela também passa pelas regras que determinam como os sistemas digitais podem — ou não — distribuir as mensagens políticas.
Fontes: reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 17 de agosto de 2026 sobre a alteração do algoritmo do X (Folha de S.Paulo); regras de propaganda eleitoral divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral e orientações sobre propaganda nas redes sociais reunidas pelo Senado Federal.